Português (Brasil)

A RÚSSIA E O CASO NAVALNY

Não se sabe ainda a causa da morte de Alexei Navalny, falecido em 16/02/2024. Mas, seguramente, ele não era um dos nossos. Era um dos deles. Quem era Navalny e porque a mídia ocidental chora por ele? Os marxistas lutam por democracia e liberdade para os trabalhadores e para oposição de esquerda e comunista russa, não para os agentes do imperialismo, neoliberais, neonazistas, xenófobos, como Navalny

Compartilhe este conteúdo:

Versão original publicada em 18 de fevereiro de 2021, publicada também em inglês pelos camaradas da Fração Trotskista da Grã Bretanha:
Russia and the Navalny Case - Democracy and freedom for workers and the leftist opposition, not for agents of imperialism, neo-liberals, neo-Nazis, xenophobes, like Navalny
Atualizada em 18 de fevereiro de 2024

Alexey Navalny estava para a Rússia, como Juan Guaidó está para a Venezuela ou Yoani Sanchez para Cuba. A imagem dos três foi construída como sendo “dissidentes” políticos de governos de nações inimigas dos EUA. Essas nações tem sido há décadas submetidas a sanções econômicas e diplomáticas e sobre elas aumenta o cerco por bases militares do exército mais poderoso do planeta, comandando tropas da OTAN.


Apesar das diferenças, a função política dos três basicamente é a mesma. Operam pela desestabilização interna do adversário e por sua demonização internacional para justificar a intervenção externa, as sanções e agressões contra a soberania de seus próprios países. Também é similar a plataforma política-ideológica, neoliberal e que defendem.

Lula comenta a morte de Navalny: “Para que essa pressa de acusar alguém?” | Vídeo da CNN



Guerra Híbrida
 

No século XXI, o imperialismo vem tentando turbinar esses novos tipos de dissidentes como líderes de “revoluções coloridas”, movimentos cujo resultado só beneficiam ao imperialismo. Esses líderes se apresentam como preocupados com os interesses de seus conterrâneos, mas defendem políticas e medidas, como as sanções, que castigam profundamente a população de seus países. Alguns se apresentam como blogueiros, como Navalny e Sanchez, outros, como “políticos”.

No caso de Guaidó, a desmoralização é evidente e emblemática. O mandato dele de deputado nacional se encerrou em 2020, ele não foi reeleito a coisa alguma pelo povo venezuelano mas é reconhecido como “presidente interino” da Venezuela apenas pelos EUA e seu séquito de governos lambe-botas mundo afora. Derrotados todos os atentados, invasões, condenações, lawfares, tentativas de golpe de estado só sobrou ao imperialismo a possibilidade de proclamar formalmente a própria vitória e vende-la como real.

A impotência dos EUA contra a Venezuela dá a medida da desmoralização do Império e da decadência de sua hegemonia justamente em seu “quintal”, a América Latina, e no país, onde vem sendo derrotada a política de contrarrevolução permanente de golpes para derrubar o chavismo em todos os últimos 20 anos. Parece que o leão imperialista ficou desdentado e não consegue mais morder e mastigar suas vítimas.

Se nessas três nações a ineficácia da guerra híbrida acompanha a decadência do poder hegemônico dos EUA, nos últimos 80 anos essa tática se mostrou, na maioria das vezes, bem mais eficaz que todo os caros investimentos em guerras convencionais. Nesse período, a mudança mais drástica de orientação de investimentos na guerra convencional para a híbrida só não foi maior pela resistência do Complexo Militar Industrial em perder orçamento. Também ficou claro que a vitória imediata em uma guerra convencional pode fabricar uma derrota estratégica do imperialismo no controle político, social do país derrotado. Um caso muito emblemático do que estamos dizendo é o Iraque (ver em Decadência do imperialismo dos EUA catapulta liderança regional do Irã ), e talvez, também a rigor passe o mesmo com o Afeganistão e a Líbia.

Interessante como mostra que a guerra híbrida está ultrapassando a possibilidade de uma guerra militar aberta (o que era normalmente conhecida como uma "guerra total"), uma guerra do tipo "total" é mais provável como parte de uma segunda guerra civil americana do que como parte de uma guerra civil estadunidense que um confronto entre as grandes potências mundiais. 

Em dezembro de 2020 Hillary Clinton fez um longo alerta exigindo redução em investimentos militares convencionais obsoletos na nova guerra fria e maiores investimentos no Departamento de Estado, ou seja, no Ministério que conduz a política exterior do império de Golpes de Estado.

"A supermilitarização da política externa dos EUA é um mau hábito que remonta aos dias em que o presidente Dwight Eisenhower advertia do “complexo militar-industrial”. Muitos generais entendem o que James Mattis disse ao Congresso quando liderou o Comando Central dos EUA: “Se você não financiar totalmente o Departamento de Estado, então, no final das contas, preciso comprar mais munição”... O país está perigosamente despreparado para uma série de ameaças,... desafios multidimensionais da China e da Rússia. Sua força industrial e tecnológica atrofiou, suas cadeias de suprimentos vitais estão vulneráveis... uma abordagem mais ampla que engloba ameaças não apenas de mísseis balísticos intercontinentais e insurgências, mas também de ataques cibernéticos, vírus, emissões de carbono, propaganda online e mudanças nas cadeias de abastecimento,... a China - junto com a Rússia - representa uma ameaça totalmente diferente daquela que a União Soviética representou. A competição de hoje não é uma competição militar global tradicional de força e poder de fogo. Tirar o pó do manual da Guerra Fria fará pouco para preparar os Estados Unidos para adversários que usam novas ferramentas para lutar na zona cinzenta entre a guerra e a paz, exploram sua Internet e economia abertas para minar a democracia americana e expor a vulnerabilidade de muitos de seus sistemas de armas legados... As mudanças no orçamento devem ter como objetivo preparar os Estados Unidos para um conflito assimétrico com adversários tecnologicamente avançados... Um compromisso renovado com a diplomacia fortaleceria a posição militar dos Estados Unidos. As alianças dos EUA são um ativo que nem a China nem a Rússia podem igualar, permitindo a Washington projetar força em todo o mundo.” (Um balanço da segurança nacional - Como Washington deve pensar sobre o poder)


Sem renunciar a política de cerco continental com dezenas de bases militares da OTAN, mas apostando muito mais as operações de inteligência e infiltração, a guerra híbrida é uma modalidade de conflito que aposta nas forças assimétricas, instrumentos paraestatais, mobilizações civis, propaganda online, redes sociais, campanha midiática internacional, diplomacia agressiva, “abordagens adaptativas” (expressão usado por Valery Gerasimov, Chefe do Comando Geral das Forças Armadas da Rússia), para o fracionamento das defesas adversárias, incluindo a opinião pública, projetando os novos dissidentes como líderes populares.

Pela grandiosidade dos investimentos nessa parafernália de instrumentos combinados, explorando as contradições dos adversários é possível converter qualquer “zé ruela” em um grande e carismático líder opositor de massas. A evidencia maior do sucesso dessa tática foi o processo golpista que converteu Bolsonaro em presidente de um país do tamanho do Brasil.

Os novos “dissidentes políticos”, meros agentes do imperialismo, são vendidos como “líderes da oposição”, e se tornam epicentros da política imperialista de uma modalidade de guerra indireta, visando a queda de governos e mudança de regime, que vem sendo aprimorada pela CIA desde do golpe de estado, bem-sucedido, de 1953 no Irã.

Todavia, apesar dos resultados favoráveis em Honduras, Paraguai, Brasil, Equador, Bolívia (até 2020), Líbia, a guerra híbrida não vem dando certo quanto ao objetivo de mudança de regime com Cuba desde 1959, com a Venezuela desde 2002 e com a Rússia de Putin. Em relação a Cuba, a guerra híbrida é pela restauração capitalista no Estado operário e na Rússia, Navalny era contra as tendências que apontam ao capitalismo de Estado de Putin.

No dia 3 de fevereiro foi renovado o tratado de redução de armas estratégicas, o New START, até 5 de fevereiro de 2026, entre Biden e Putin. O acordo bilateral limita os arsenais de ambos a 1.550 ogivas nucleares para cada país (30% a menos do que o fixado em 2002) e a 800 lançadores e bombardeiros pesados. Para além de que ambos obedecem a lógica do medo da guerra atômica, a facilidade com que foi renovado o tratado revela que hoje as possibilidades da guerra nuclear geram menos tensões entre EUA e Rússia que a guerra híbrida:
 

"O governo Biden disse que está analisando uma série de más ações da Rússia e pesando como os EUA vão responder, incluindo uma resposta à Rússia realizando um ataque cibernético massivo de agências governamentais e empresas privadas, relatou recompensas russas sobre as cabeças de soldados americanos em Afeganistão e interferência nas eleições internas dos EUA.

Os EUA também estão avaliando as ações contra Moscou pela tentativa de assassinato com arma química da figura da oposição russa Alexei Navalny e declararam que sua prisão e sentença subsequente em um tribunal de Moscou são "motivadas politicamente". Os EUA condenaram ainda a prisão de milhares de apoiadores de Navalny que protestam contra sua detenção e corrupção governamental." (EUA e Rússia chegam a acordo sobre a extensão do tratado de armas nucleares por cinco anos)


A Grã Bretanha e a União Europeia seguem os EUA na campanha de demonização da Rússia e projeção de Navalny. Essas nações europeias agem assim não apenas pelo poder de convencimento da diplomacia estadunidense, mas também porque desejam a participar do botim que seria a vitória de uma revolução colorida na Rússia, convertendo o país novamente em um prostíbulo do saque internacional de desmanche do país como foi durante os anos Yeltsin (1991-1999).
 

Localizações de bases militares da OTAN
e dos EUA na Alemanha em 2020


Por sua vez, a Alemanha encontra-se cada vez mais diante de um paradoxo. A potência imperialista mais importante da UE é militarmente ocupada por bases dos EUA desde 1945. Ainda hoje a Alemanha é uma colônia dos EUA do ponto de vista militar. Os militares dos Estados Unidos têm 40 instalações militares na Alemanha. Por outro lado, a Alemanha é dependente do gás russo. Por isso, ao passo que defende Navalny, Merkel estreita suas relações com a China e defende o Nord Stream 2, gasoduto que levará o gás russo diretamente à Alemanha sem passar pela Ucrânia.

Moscou, 1993, a crise entre o Yeltsin, apoiado pelo imperialismo, e o Parlamento. As manifestações foram crescendo em defesa do Soviete Supremo e pela restauração da URSS


Quem era Navalny e o qual seu programa para a Rússia?

O principal opositor de Putin em quase todas as eleições russas tem sido o stalinista Partido Comunista da Federação Russa. É compreensível que seja assim porque o PCFR é o principal sucessor da burocracia soviética que governou o país de 1917 até 1991.

 

O principal partido de oposição a Putin ainda é o stalinismo. Homenagem do PCFR a Stalin

 

Todavia, Alexey Navalny é apresentado pela mídia ocidental, dentro e fora da Rússia como o principal opositor de Putin Ver (Alexéi Navalny: lo que te cuentan, lo que no (y por qué no te lo cuentan).

Nas últimas eleições presidenciais, em 2018, o PCFR apoiou a candidatura do empresário Pavel Grudinin, obtendo, embora a segunda colocação no pleito, menor votação que nos anos anteriores, 11%. Uma expressão do decadente aburguesamento do partido herdeiro do antigo PCUS. Nesse mesmo pleito, revela-se também a falta de apoio de massas dos partidos neoliberais pro-ocidentais. Mesmo se unificarmos os votos dos dois partidos com esse perfil, o “Iniciativa Cívica” e o Yabloko não chegam a 3% dos votos.

 

Em 2010 Navalny recebeu uma bolsa da Universidade de Yale (Connecticut, Estados Unidos), passando a fazer parte do "Greenberg World Fellows Program", um programa que seleciona anualmente um grupo de pessoas de várias partes do mundo para se tornarem "líderes globais". O programa é uma é uma espécie de “Escola das Américas” para formação de líderes golpistas civis.


Em 2011, Navalny fundou a ONG Fundação Anticorrupção (em russo , ???? ?????? ? ?????????? ). Em 2014 foi criada a operação judicial Lava Jato no Brasil. Ambas são instituições criadas durante o governo Obama e servem de instrumento dos EUA para acossar as forças políticas que em 2006 criaram os BRICS. A operação de lawfare foi fundamental no Brasil para perseguir o PT, prender Lula e tirá-lo da corrida presidencial em 2018, assegurando a estabilidade do processo golpista e a eleição de Bolsonaro.

Mas, diferente do Brasil, a Rússia governada por um ex-agente da KGB, não concedeu a oposição pró-ocidental a vice-presidência do país, a política financeira, a mídia e o ministério público. Erro cometido por Dilma, mesmo após Eduard Snowden, que se exilou na Rússia, ter denunciado em 2013 que o governo do PT e a Petrobrás eram alvo de uma profunda espionada da National Security Agency (NSA) dos EUA, o braço privado da CIA em que Snowden trabalhou.


A corrupção está no DNA do Estado capitalista, o comitê gestor, legal ou ilegal, dos negócios da classe burguesa. Na Rússia não é diferente. Inclusive, o momento mais corrupto, mais mafioso da política russa foi quando o seu governo se encontrava mais profundamente sob o controle dos EUA e Uniao Europeia, durante o desmantelamento da Rússia nos anos 1990, quando muitos dos atuais patrocinadores de Navalny saquearam de forma inédita o país até chegar ao fundo do poço no ataque especulativo de agosto de 1998. Antes disso, somente durante a invasão da URSS pelo exército nazista o país havia sido tão pilhado.

 

Durante os anos 90 foi aplicada uma “terapia de choque” na ex-economia soviética, inspirada no modelo neoliberal de Pinochet. Um artigo emblemático, quase uma diretiva para a nova política econômica da restauração foi publicado no Washington Post no calor da ascensão de Yeltsin que sobre o regime político que poderia ser instalado ponderava:
 

“Pode incomodar os economistas ocidentais, mas a história revela que as nações economicamente bem-sucedidas podem ter mercados livres sem pessoas livres. As reformas democráticas não são essenciais para um crescimento econômico explosivo. "Não há dúvida de que pode haver rápido crescimento econômico sob uma ditadura", reconhece Mancur Olson, professor de economia da Universidade de Maryland que se especializou em questões de desenvolvimento econômico. "Houve ditaduras que compreenderam e respeitaram as forças do mercado.” (Chile de Pinochet, um modelo pragmático para a economia soviética )


E foi o que fez Yeltsin em 1993 na guerra contra o legislativo, que ainda atendia pelo nome de Soviet Supremo, possuía um grande apoio popular e havia aprovado o impeachment de Yeltsin. Em 28 de setembro, protestos públicos contra o governo de Yéltsin tomaram as ruas de Moscou. Na repressão das manifestações, houve vários mortos. No domingo, 3 de outubro, os manifestantes removeram cordões policiais em todo o parlamento, assumiram a Prefeitura e tentaram invadir o centro de televisão Ostankino. Por ordens de Yéltsin, o Exército invadiu o prédio do Soviete Supremo no início da madrugada de 4 de outubro. O conflito de dez dias foi o pior combate de rua em Moscou desde a Revolução de Outubro de 1917. Segundo estimativas do próprio governo, 187 pessoas foram mortas e 437 feridos.

 


Assim como Navalny hoje, na época, Yeltsin defendia que “as reformas democráticas são essenciais para a prosperidade econômica” (idem).


Os arquitetos da campanha de Navalny parecem ser os mesmos que escreveram o roteiro de Yeltsin:
 

“A mudança mais recente no regime da Rússia, da União Soviética para o estado russo moderno, novamente exigiu uma conspiração de fatores que trabalharam a favor da oposição. O principal líder da oposição russa, Boris Yeltsin, como Navalny, jogou bem a cartada populista, reclamando em voz alta e sempre ao alcance de um microfone sobre escassez, corrupção e ineficiência.” (É improvável que apenas a coragem de Navalny possa mudar o poder no qual Putin está entrincheirado)


Mas Navalny defende um programa neoliberal bem mais radical que o próprio Yeltsin:
 

Empresários, avancem!

Nosso programa inclui uma ampla gama de medidas para libertar os empresários da pressão da burocracia, funcionários de segurança e monopólios. Estamos implementando um programa para demonopolizar a economia e reduzir os preços do monopólio. Vamos reduzir o número de órgãos reguladores e liquidar alguns deles. Proibiremos as inspeções comerciais - o controle das operações será transferido para um formulário eletrônico... O sistema judicial criado por nós, totalmente independente do poder executivo, protegerá de forma confiável a propriedade privada de invasões e arbitrariedade de agências governamentais... Na Rússia agora existe uma espécie de capitalismo incompreensível, no qual o estado controla mais da metade da economia e comanda os empresários. Tal sistema atrapalha o desenvolvimento do país... Faremos as pazes com o mundo civilizado, acabaremos com a agressão contra a Ucrânia e assim conseguiremos o levantamento das sanções que impedem nossos empresários de negociar com o mundo exterior e de tomar empréstimos baratos nos mercados financeiros mundiais.

Uma economia sem corrupção, monopólios e laço burocrático

O sistema de Putin é estruturado de forma simples: aumenta constantemente as extorsões de empresários honestos e cidadãos comuns no interesse de um círculo limitado de funcionários, seus parentes e amigos, bem como dos monopólios a eles associados. Vemos o sistema econômico completamente diferente: um estado compacto que fornece à sociedade importantes serviços sociais e de infraestrutura (medicina, educação, transporte, sistema previdenciário) com total não interferência na vida econômica do país e ausência de grandes monopólios estatais.” (Plataforma de Navalny em 2018)

 

Navalny foi comprovadamente um agente da OTAN. Filmagens do Serviço Federal de Segurança Russo, o FSB, em que o Diretor Executivo da Fundação Anticorrupção (FBK) de Navalny, Vladimir Ashurkov, reúne-se com o Secretário de Assuntos Políticos do Reino Unido embaixada na Rússia, James William Thomas Ford e pede maiores investimentos em seu movimento.
 

“durante a reunião, Ashurkov indicou que "se tivéssemos mais dinheiro, expandiríamos nossa equipe, é claro", acrescentando que sua meta de obter "um pouco de dinheiro" como "$ 10, $ 20 milhões por ano" faria um enorme diferença. Ele sugeriu, como pode ser visto no vídeo, que as atividades da organização beneficiariam empresas londrinas (capital britânica). “E isso não é muito dinheiro para pessoas que têm bilhões em jogo”, disse Ashkurov. “Esta não é uma grande quantia de dinheiro para pessoas que têm bilhões em jogo. E essa é a mensagem que estou tentando transmitir em meus esforços de arrecadação de fundos e conversando com as pessoas da comunidade empresarial ”. (Reveladas as ligações de Navalny com o British Intelligence Service)

Para os liberais Navalny se tornou um símbolo da luta pelos direitos e pela democracia na Rússia e no mundo de hoje, uma versão eslava de Nelson Madela. Não raros partidos e internacionais pseudotroskistas, como o POI russo, seção da LIT do PSTU brasileiro, o RCIT austríaco, o PTS argentino, a TMI, ligada a “Esquerda Marxista” do PSOL brasileiro, defendem Navalny, com mais ou menos ressalvas, mas o apoiam e ainda mais suas manifestações.

Na verdade, Navalny foi expulso do Partido Liberal Russo em 2007 por seu nacionalismo xenófobo prejudicar a imagem do partido. Ele fundou seu próprio partido e atraiu a simpatia de organizações skinheads e neonazistas (proscritas pelo governo russo depois do Euromaidan ucraniano), realizou campanhas políticas contra os imigrantes, divulgou mensagens de apoio à violência do movimento anti-imigração russo, um dos mais ferozes do mundo, responsável por centenas de assassinatos por motivos raciais. Isso pode ser comprovado no vídeo: “Alexei Navalny and the Russian Nazis”.

Apesar do estereótipo que se faz dos russos como brancos de olhos azuis e cristãos ortodoxos, a Federação Russa é um Estado plurinacional com 193 etnias (Grupos étnicos na Rússia) diferentes. Grande dos povos da Federação Russa tem pele escura e muitos são muçulmanos.

 

 

Todavia, em um vídeo de seu canal, Navalny estimulou aos “cidadãos de bem” russos a se armem e apoiem à legalização das armas de curto alcance para poder exterminar militantes muçulmanos do Cáucaso de pele escura, a quem Navalny compara a baratas. Diz ele no vídeo que embora as baratas possam ser mortas com um chinelo, no caso dos muçulmanos de pele escura, “eu recomendo uma pistola”. 


Navalny apoiou o golpe neonazista do Euromaidan em que Biden, então vice-presidente dos EUA foi beneficiário direto, através da nomeação de Hunter Biden, seu filho como Diretor consultivo da Burisma Holdings, grande produtor de gás natural da Ucrânia, após o golpe ter sido bem-sucedido. (Ucrânia revela pagamento do Burisma a Biden por lobby

Mas, na guerra civil, o país foi dividido ao meio, sendo que a população da fração mais industrializada do território armou-se e se autonomizou da capital Kiev. E na Península da Criméia, ucranianos pró-russos invadiram grandes edifícios do governo golpista, bases militares e instalações de telecomunicações da península e forçaram as autoridades locais a realizarem um referendo sobre reunificação com a Rússia, passando uma república autônoma da Federação Russa.

A Crimeia tem sido historicamente uma região geopolítica onde se encontram as fronteiras entre o mundo clássico e as estepes pônticas, que se estende no norte do Mar negro até o leste do Mar Cáspio. Desde 1783 a Criméia pertencia ao império russo. Após a revolução bolchevique de 1917 foi convertida em província autônoma da URSS. Em 1954, em um gesto pela fraternidade dos povos russo e ucraniano, Krushov entregou a Crimeia para a Ucrânia.

Do alto da autoridade que lhe foi conferida pela mídia imperialista, como “principal opositor de Putin” (assim como Guaidó em relação a Maduro), o blogueiro reclamou punições mais severas do que as que as potências ocidentais dos EUA e UE haviam imposto, pela questão da Criméia.

Todavia, Navalny comportava-se como um camaleão e vive desmentindo o que disse para adaptar-se a distintas situações em um pragmatismo pueril, assim como o fazem Trump e Bolsonaro.

Entre 2011 e 2013 ocorreram importantes protestos contra Putin. Como relata um dos líderes desse processo, Alexey Sakhnin, membro da Frente de Esquerda, naquele momento,
 

“Navalny recebeu apoio principalmente da classe média da capital e das maiores cidades. Mas a classe trabalhadora e a maioria pobre em geral não confiavam nele. Eles permaneceram indiferentes à sua agenda anticorrupção, vendo a corrupção como apenas uma das técnicas para enriquecer a elite e não o fundamento da desigualdade de classes.” (Como um nacionalista russo chamado Alexei Navalny se tornou um herói liberal)


Assim, no mesmo programa de 2018 que ele defende privatizações e Estado mínimo, para agradar os empresários e os especuladores ocidentais, também tenta seduzir alguns incautos da classe trabalhadora dizendo palavras bonitas como que as pessoas devem viver com dignidade: salários decentes, pensões decentes.
 

“A prioridade da política orçamentária de Alexei Navalny será o financiamento da saúde e da educação. Os gastos do governo nessas esferas dobrarão e, em termos de sua participação no PIB, a Rússia será igual aos países desenvolvidos ”.


O mesmo disfarce existe no plano da política internacional, como registrado em Wikipedia:
 

Em março de 2014, após a anexação da Crimeia pela Rússia, Navalny pediu mais sanções contra funcionários e empresários ligados a Putin e propôs uma lista de sanções para os países ocidentais, dizendo que as sanções anteriores dos EUA e da UE foram "ridicularizadas". Em outubro de 2014, Navalny disse em uma entrevista que, apesar da Crimeia ter sido "apreendida" ilegalmente, "a realidade é que a Crimeia agora faz parte da Rússia". Quando questionado se devolveria a Crimeia para a Ucrânia se se tornasse presidente russo, ele disse: "A Crimeia é algum tipo de sanduíche de salsicha para ser passada de um lado para outro? Acho que não". Em 2015, Navalny lamentou as ações de "boas-vindas aos muçulmanos" da Rússia e a abertura da maior mesquita em Moscou. Em 2016, ele falou contra a intervenção russa na guerra civil síria , acreditando que há problemas internos na Rússia que precisam ser resolvidos ao invés de se envolver em guerras estrangeiras..." Em 2020 passou cinco meses em tratamento na Alemanha por envenenamento, que ele atribui às autoridades russas.


Putin: do saqueio internacional da era Yeltsin ao governante do PetroEstado que é o principal opositor militar dos EUA na atualidade

Putin projetou-se como grande líder da Rússia em um cenário de terra arrasada no país pela colonização da era Yeltsin, entre 1991 e 1998. Segundo o escritor geopolítico William Engdahl, em sua obra “Manifest Destiny – Demcracy as Congnitive Dissonance” (2018):
 

“Boris Yeltsin e seus "reformadores do mercado livre" eram parte de uma das operações secretas de saque mais criminosas na história da CIA. Foi o estupro da Rússia por um círculo corrompido de generais soviéticos traiçoeiros, juntos com seus protegidos jovens seleção KGB, que foram transformados através da operação em oligarcas bilionários. Esse estupro econômico só foi possível através de bancos ocidentais e da chamada "máquinas da democracia" de Washington sob três presidentes sucessivos - Ronald Reagan, George H.W. Bush e Bill Clinton. Poucas pessoas no Ocidente poderiam compreender a tristeza e raiva do Presidente russo Vladimir Putin quando ele disse a uma audiência seleta de políticos russos da Duma no Kremlin em setembro de 2016, "Vocês sabem como me sinto sobre o colapso da União Soviética. Foi desnecessário. Nós poderíamos introduzir reformas, incluindo as de natureza mais democrática, sem permitir que se chegasse a isso”.

Putin não precisava descrever o "isso". Todos os presentes sabiam que ele queria dizer a selvagem destruição da vida, do sentimento de valor e orgulho para a maioria dos russos até 1990.” (p. 29).

 


Mais adiante, Engdahl revela em detalhes que participaram desse estupro altos funcionários da CIA, dentre os quais Bill Casey, o fundador do NED, a agência privada para operações sujas e híbridas, os banqueiros Rothschild, George Soros, o banqueiro Bruce Rappaport, fundador do Inter Maritime Banco de Nova York do paraíso fiscal de Antigua e Barbuda, e até o brasileiro Edmundo Safra:
 

“A filial do Banco Safra de New York, de Edmond Safra, assumiu a propriedade de 20% do Banco Inter Maritime de Nova York de Rappaport. Começando em 1992 com a pilhagem da Rússia pela CIA por meio de oligarcas escolhidos a dedo, como Khodorkovsky e Berezovsky, o Banco de Safra estava mergulhado na lavagem de dinheiro de bilhões para o seleto círculo de oligarcas de Yeltsin.” (p.47)

Entrevista F. William Engdahl: “Para entender o estupro do Brasil, em 2016: Estupro da Rússia, nos anos 1990s


Durante toda essa pilhagem, Putin ocupou altos postos governamentais como o de vice-diretor do departamento de Gestão de Ativos da administração Yeltsin. Em julho de 1998, foi nomeado diretor do Serviço de Segurança Federal (FSB, sucessor da KGB), cargo que a partir de março do ano seguinte ocupou simultaneamente com o de secretário do Conselho de Segurança Nacional. A partir de 1999, Putin assumiu o controle do país, reestatizando setores estratégicos como petróleo, gás e defesa, reestabelecendo a condição de potência que o país tinha durante a URSS. Putin, então dirigente da oligarquia que operacionalizou a restauração capitalista derrotou opositores da esquerda e da direita, respectivamente, dirigidos pelo PCFR, e a ala oposicionista da oligarquia capitalista.

Em seu bonapartismo Putin projeta-se ao lado da China na geopolítica política mundial estabelecendo limites para o domínio dos EUA, na Ucrânia, principalmente na Síria, e atualmente na Venezuela. Putin e Lavrov conquistaram um novo espaço para a Rússia no mundo, depois do debacle dos anos 90 a ponto do país ter se tornado referência mundial na fabricação e exportação de armas táticas e estratégicas, de sistema de mísseis, como o Avangard, armas hipersônicas, e da vacinas Sputinik V, contra a Pandemia.

Mas, em 2019-2020, a situação econômica e social da Rússia piorou. A recessão global afetou a economia russa. As dificuldades econômicas se intensificaram com a epidemia de COVID-19. Putin tenta servir aos apetites da oligarquia patronal em um país profundamente assolado por sanções imperialistas. Nesse quadro, se aprofundam a miséria crescente e a concentração de capitais.

Em um artigo o Partido Comunista da Federação Russa denuncia:
 

“Hoje, na Rússia, existe uma desigualdade social colossal, dezenas de milhares de empresas faliram, a renda real dos cidadãos caiu pelo sétimo ano consecutivo. O sistema de saúde é cronicamente subfinanciado e, portanto, não pode fornecer assistência médica de alta qualidade, o país está morrendo: a taxa de mortalidade no ano passado excedeu a taxa de natalidade em 700 mil.” (Região de Krasnodar. Declaração do Comitê Regional do Partido Comunista "Sobre a realização de eventos públicos do Partido Comunista da Federação Russa em 23 de fevereiro de 2021"


As perdas salariais tem sido enormes, 15% já durante o ano de 2021. Em 1º de fevereiro essas perdas acumularam 1,87 bilhão de rublos, como registra a Agência Tass. Os maiores custos para as famílias de trabalhadores são habitacionais. De acordo com a Rosstat, em 2020, o salário médio na Rússia era de 30,5 mil rublos. Mas para comprar um apartamento de um cômodo em qualquer assentamento da Rússia, com exceção de Moscou e São Petersburgo, é necessário um salário de 100 mil rublos por mês. (Especialistas disseram quanto você precisa ganhar para comprar um "odnushka"). Uma a cada cinco famílias russas é escrava de hipotecas.

O regime usa de justificativas de controle da pandemia e da necessidade de defesa contra os agentes imperialistas para restringir os direitos democráticos também para a oposição de esquerda.
 

“No entanto, sob o pretexto da epidemia de coronavírus, nos foi negada a permissão para realizar este evento público. Ao mesmo tempo, contrariando as normas da lei, os funcionários nem se preocuparam em oferecer sites alternativos ou outros formatos para a realização da ação. Disseram-nos simplesmente: não.

Em todos os meios de comunicação oficiais, "pró-governo", os apelos são constantemente ouvidos: para não ir a ações de protesto descoordenadas, para respeitar a lei. Ao mesmo tempo, o partido no poder não apenas endureceu a legislação sobre a realização de eventos públicos nos últimos meses, mas também bloqueou deliberadamente qualquer possibilidade de realização legal de comícios, manifestações e piquetes . Assim, o próprio partido no poder provoca e empurra as pessoas para formas ilegais e descoordenadas de ações de protesto. As pessoas simplesmente não têm outra escolha.

Ressaltamos que o Partido Comunista sempre defendeu a observância da lei. Mas nenhuma de nossas notificações sobre a realização de eventos públicos no centro de Krasnodar, incluindo os dias do Exército Vermelho, Dia do Maio Vermelho, Grande Vitória, Grande Outubro, sagrado para milhões de cidadãos, foi acordada nos últimos anos. As autoridades, na melhor das hipóteses, sugeriram zombeteiramente que fôssemos para os arredores da cidade.” (Região de Krasnodar. Declaração do Comitê Regional do Partido Comunista "Sobre a realização de eventos públicos do Partido Comunista da Federação Russa em 23 de fevereiro de 2021")


Esse estrangulamento dos direitos políticos para a direita e para as organizações de esquerda dirigentes da classe trabalhadora joga água no moinho da direita, do imperialismo, assim como na época da URSS a política de repressão burocrática do stalinismo favorecia a propaganda anticomunista e russófoba imperialista, em nome da liberdade e da democracia.

Todavia, mesmo levadas em contas as maiores manifestações pró-Navalny, unindo os neonazis, xenófobos, liberais, pró-ocidentais e alguns pseudo-esquerdistas, não passaram de 50 mil manifestantes em Moscou, cidade com mais de 12 milhões de habitantes.

Qual o sentido teria defender um movimento que em nome da democracia ou da liberdade histórica e comprovadamente uma vez vitorioso amplia a ditadura da grande burguesia imperialista contra trabalhadores, imigrantes, religiões e etnias oprimidas?

Para os marxistas, a democracia é um sistema político não um valor ou princípio universal. A democracia burguesa é a democracia dos ricos. Ainda que sejamos contra os golpes de Estado orquestrados pelo imperialismo e regimes burgueses ditatoriais, a defesa dos direitos democráticos no capitalismo deve estar subordinada a ampliação da luta pelos interesses estratégicos da classe explorada, para o alcance de um sistema político fundamentado na democracia dos e para os trabalhadores, a ditadura revolucionária do proletariado contra a burguesia.

Então, a defesa da democracia depende dos interesses das classes sociais e da luta entre as nações. No caso, trata-se de defender a nação oprimida, a Rússia, de uma agressão de guerra híbrida camuflada de luta democrática para arrastar o país novamente a destruição das condições de vida como foi a era Yeltsin. Se vitoriosa, uma revolução colorida na Rússia poderia ter consequências desastrosas para a luta pelo fim da hegemonia imperialista sobre o globo. Por isso, Navalny não eraa um dos nossos e não devíamos mover um dedo para tirá-lo da prisão. Se depender de nossos esforços ele apodreceria onde estava.

Em meio a situações excepcionais de guerra híbrida, onde o país, no caso a Rússia se encontra sob uma ofensiva assimétrica imperialista, como estava a Bielorussia há poucos meses em forma aguda, defendemos direito de organização e manifestação apenas para os partidos e organizações e defensores da democracia operária, a plena organização sindical, para os inimigos das sanções ocidentais, das privatizações, do neoliberalismo, do imperialismo, da xenofobia e do fascismo. Essa linha divisória marca a diferença entre os falsos defensores da democracia e da liberdade imperialistas e os verdadeiros defensores dos direitos civis e democráticos da maioria da população. Portanto não defendíamos Navalny e suas manifestações pró-imperialistas, defendemos o pleno direitos de manifestação dos sindicatos, dos partidos e organizações políticas que se reivindicam comunistas e socialistas que buscam construir uma oposição proletária e anticampitalista contra o governo Putin.

Compartilhe este conteúdo:
 secretaria@partidocomunista.org
Junte-se a nós!