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IRLANDA: a Revolta da Páscoa

IRLANDA: a Revolta da Páscoa

História da Luta de Classes na mais antiga colônia do planeta

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Humberto Rodrigues
Versão publicada pelos camaradas de Consistent Democrats, da Grã Bretanha
 
Este artigo é uma versão atualizada e aprimorada de um artigo de 2011 sobre a luta de classes na Irlanda. Foi extraído da versão original do blog da Liga Comunista: PRISIONEIROS REPUBLICANOS IRLANDESES: Pelo reconhecimento da condição de presos políticos e pela liberdade para os prisioneiros republicanos irlandeses das garras do imperialismo britânico!, Do Bolchevique #5
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Em 2024 completam-se 108 anos da Revolta de Páscoa e 43 anos da greve de fome dos presos políticos irlandeses, dois dos conflitos mais importantes da luta de libertação nacional irlandesa. Esse último momento, a greve de fome de 1981 foi liderada por Bobby Sands e foi um dos mais heroicos acontecimentos da história mundial.
 
A Irlanda foi por séculos a mais antiga das colônias, foi atrofiada desde o século XII até hoje em seu desenvolvimento pela invasão da Inglaterra, que fez da ilha vizinha sua primeira colônia, subjugada “através do mais abominável reinado do terror e da mais condenável corrupção” (Carta de Marx a Kugelmann, 29/11/1869).
 

A luta deste povo sempre foi acompanhada de forma apaixonada pelos socialistas desde Marx e Engels, que defendiam intransigentemente a libertação nacional irlandesa e os presos políticos fenianos (organização revolucionária guerrilheira irlandesa). Para Marx, a libertação da Irlanda era “A” condição preliminar da revolução socialista na Inglaterra, a principal nação capitalista de seu tempo.

 
“Portanto, é tarefa da Internacional, em toda parte, colocar em primeiro plano o conflito entre a Inglaterra e a Irlanda, pondo-se abertamente ao lado da Irlanda. E é tarefa do Comitê Central em Londres despertar a consciência dos operários ingleses para o fato de que, para eles, a emancipação nacional da Irlanda não é uma questão de justiça abstrata ou de sentimentos humanitaristas, mas a primeira condição para sua própria emancipação social”. (Carta de Marx a S. Meyer e A. Vogt, Londres, 09/04/1870, grifos no original).
 
É a partir desta luta que Marx deduz que “um povo que subjuga outro, forja suas próprias cadeias.”
 
Da fusão da luta dos trabalhadores pela libertação nacional irlandesa com o marxismo, nasceu um valoroso dirigente operário chamado James Connolly, o qual alertava seus irmãos para a incapacidade da burguesia e da pequena burguesia irlandesas em conduzir a emancipação do país do colonialismo. Em um de seus primeiros escritos, um panfleto sob o título de “Esperança de Erin - o Fim e o Meio” (1897), concluía que a classe trabalhadora irlandesa era "a única base segura sobre a qual se pode construir uma nação livre".
 


Treze anos depois, em sua principal obra “O Trabalho na História Irlandesa” (1910) ele afirma que as classes média e proprietária “possuem mil laços econômicos na forma de investimentos que as ligam ao capitalismo inglês [...] Apenas a classe trabalhadora irlandesa permanece como a herdeira incorruptível da luta pela liberdade na Irlanda”.
 
Não dá para deixar de notar que, de forma embrionária, Connolly possuía ideias semelhantes às que foram plenamente desenvolvidas pelo revolucionário russo Leon Trotsky na mesma época, e que passaram a ser conhecidas como a teoria da revolução permanente. Apesar de embrionárias, estas ideias foram visionárias para o futuro da luta de classes em seu país. Ele dizia que: “Se retirarem o exército britânico amanhã e hastearem a bandeira verde no castelo de Dublin, a não ser que organizem uma república socialista, todos os seus esforços terão sido em vão e a Inglaterra ainda os governará por meio dos donos de terra, dos capitalistas e das instituições comerciais”.
 
No final de 1911, Connolly, na direção do Sindicato Geral dos Transportes (ITGWU), principal sindicato do país, enfrenta-se politica e militarmente contra os locautes patronais e a polícia controlada pelo exercito britânico. Nesta disputa, os trabalhadores formaram uma organização de defesa, uma "Polícia Operária", para se protegerem da polícia e dos fura-greves armados. Esta “Polícia Operária” foi uma precursora do que viria a ser o Exército Republicano Irlandês, o IRA,  uma organização guerrilheira fundada em 1919, como braço militar do Sinn Fein (Nós Próprios), o partido político nacionalista republicano burguês.
 

Proclamação da República da Irlanda

O revolucionário irlandês foi profético em temer o prejuízo de uma divisão da ilha para o futuro da luta pela libertação da mesma. Ele previra que a partição que viria a ocorrer entre Irlanda e Irlanda do Norte alguns anos após sua execução pelas tropas britânicas “significaria um carnaval de reação no Norte e no Sul, faria o movimento operário irlandês retroceder, e paralisaria todos os movimentos progressistas enquanto durasse".

 
Sobre isto, Connolly está cada vez mais correto não só sobre seu país, onde a regra do “dividir para governar” valeu como protótipo no início século XX, mas também para todas as outras secessões contrarrevolucionárias de colônias, manipuladas pelo imperialismo (Coréia, Vietnã, Sudão,... sendo agora, a bola da vez, a Líbia). No entanto, em 1916, a carnificina da I Guerra Mundial e uma série de derrotas e traições confundiram o revolucionário irlandês, que chegou a por de lado uma série de concepções que defendera ao longo da vida, para liderar um levante prematuro e sem a imprescindível ação politica e organizativa independente da classe operária em forma de partido revolucionário. A traição do nacionalismo burguês à insurreição comandada por Connolly lhe custou a vida. O levante militar conhecido como a “Revolta da Páscoa” foi cruelmente esmagado. Connolly foi gravemente ferido e preso. Logo em seguida, foi submetido a uma corte marcial no próprio hospital do exército e transferido para uma prisão onde, ao chegar, foi fuzilado pelas tropas de ocupação.
 
Depois do massacre da “Revolta de Páscoa”, a vaga revolucionária aberta pela revolução russa de 1917 e pela revolução alemã massacrada em 1919, os lutadores republicanos irlandeses voltaram a lutar bravamente, ocasionando uma guerra civil que terminou em 1921 com um relativo recuo do colonialismo britânico. Representantes da burguesia irlandesa estabelecem um Tratado com a Inglaterra que reconhece o “Estado Livre Irlandês” na condição de que o “Estado Livre” se mantivesse como parte da Comunidade Britânica, que os membros do parlamento irlandês jurassem lealdade ao Rei inglês Jorge V e que seis dos 32 condados irlandeses, de maioria anglicana situados no norte, mantivessem-se sob ocupação britânica e sob o controle dos irlandeses unionistas, defensores da unidade com a Inglaterra. O IRA se divide então entre os defensores do Tratado, ou tratadistas, dirigidos por Michael Collins, hoje representados pelo partido Fine Gael, e os anti-tratadistas, dirigidos por Éamon de Valera, que anos depois rompe com o Sinn Fein e com o IRA e funda o Fianna Fail. Existe um filme que romantiza estes acontecimentos que se chama “Michel Collins, o preço da liberdade” (1996), e justifica a traição de Collins. O cineasta Ken Loach em “Ventos da Liberdade” (2006) retratou melhor, com mais veracidade este período.
 
Ao longo do século XX, os nacionalistas republicanos capitularam a vários acordos de paz ou foram várias vezes esmagados e novos lutadores ergueram novamente a bandeira anti-colonialista, reorganizando dissidências do IRA para lutar por todos os meios contra a separação imposta ao país pelos acordos entre o imperialismo e a corrupta burguesia irlandesa.
 
Em 1939, a revista marxista “The New International”, publicada pelos trotskistas da Liga Comunista da América, assinalava:


“Bombas estão explodindo novamente na Irlanda e na Inglaterra. Sob o próprio nariz do Ministério do Interior em Londres, sob o monumento aos reis ingleses em Belfast, sob as paredes das prisões onde milhares de patriotas irlandeses cumpriram suas penas e sob os escritórios alfandegários ao longo da fronteira do Ulster, explosões altas e repentinas marcam o 23º aniversário da Semana da Páscoa. E estas explosões não são meramente comemorativas. Elas servem para lembrar o mundo da luta pela independência nacional de um povo que combate sem tréguas por setecentos anos contra o mais poderoso e impiedoso opressor de todos os povos coloniais: a classe dominante do Império Britânico. (...) Ao compreender que, sem as forças combinadas da classe operária irlandesa e dos trabalhadores ingleses e as forças revolucionárias nas colônias, a independência nacional não pode ser conquistada completamente, não podemos simplesmente dispensar os bombardeios atuais como inúteis ou reacionários. Eles não são meros atos isolados de violência cometidos por indivíduos consternados e frustrados. Eles são, pelo contrário, cuidadosamente planejados e conduzidos de acordo com um plano organizado e elaborado por revolucionários que, eles mesmos, admitem que as bombas são apenas o primeiro passo na renovação da luta. Estes homens sabem e estão se planejando para os passos necessários para unir as forças de oposição. As bombas estão servindo para chamar a atenção para o Exército de Ocupação agora na Irlanda e o retorno da repressão que precedeu a última guerra. Os revolucionários em toda parte devem se mobilizar para apoiar o movimento para arrancar a liberdade e a independência do ‘maior senhor de terras da Europa’ e, assim, ao desferir um golpe no coração da maior potência imperialista do mundo, liberar as forças da revolução em todos os países coloniais antes que a guerra engolfe a humanidade em uma luta para destruir a si mesma pelos lucros e o poder do capitalismo" (The New International # 4, 04/1939).
 
Mini-série televisiva chamada Rebellion que narra a Rebelião de Páscoa irlandesa a partir do ponto de vista de três mulheres que possuem diferentes histórias de vida, motivações e participações dentro da rebelião.
 
Em 1972, as tropas de ocupação inglesas dispararam contra uma manifestação pacífica em Derry, na Irlanda do Norte, matando quatorze pessoas, das quais sete eram menores de idade. Todas as vítimas estavam desarmadas e cinco delas foram alvejadas pelas costas. Os manifestantes protestavam contra a política do governo irlandês de prender sumariamente pessoas suspeitas de atos terroristas. Essa política era dirigida contra o IRA. Após o “Domingo Sangrento”, o IRA ganhou um número enorme de jovens voluntários, dando força ainda maior ao grupo guerrilheiro. Em 1973, Marian Price, que acabara de formar-se como enfermeira, foi recrutada pelo IRA. Ela e outros nove militantes foram presos, acusados de por bombas em Londres a fim de explodir o Old Bailey (Tribunal Penal Central), a Casa Hillgate (um prédio do governo) e o centro de recrutamento do exército Whitehall. Duzentas pessoas ficaram feridas e um homem morreu de um ataque cardíaco e sua morte foi atribuída aos atentados. Marian Price foi condenada a prisão perpétua.
 
Em 1981, vários militantes do IRA presos na Inglaterra, liderados por Bobby Sands, um quadro dirigente do IRA, entraram em greve de fome para que a Coroa reconhecesse sua condição de prisioneiros políticos. Após 66 dias, a inflexibilidade do governo inglês leva-os à morte. Mas a greve desmoralizou a Dama de Ferro, Margareth Tatcher, fundadora junto com o ianque Ronald Reagan da ofensiva antioperária batizada de neoliberalismo. Tatcher aumentou a presença das tropas britânicas nos seis condados da Irlanda do norte e tentou criminalizar o republicanismo irlandês aos olhos da opinião pública, suprimindo qualquer diferença entre o tratamento dispensado nos cárceres para o IRA e os presos comuns.
 
Em resposta, os presidiários republicanos irlandeses deflagram uma greve de fome. Suas reivindicações: não usar uniformes de presidiário; não realizar trabalhos forçados; liberdade de associação e organização de atividades culturais e educativas; direito a uma carta, uma visita e um pacote por semana; e que os dias de protesto não fossem descontados quando do cômputo do cumprimento da pena. Recusando-se a serem tratados como criminosos, defendiam, simultaneamente, sua dignidade pessoal e a legitimidade da luta pela libertação de seu país.
 
Sands, o primeiro dos grevistas a recusar alimentação e o primeiro a morrer após 66 dias, protagonizou uma tenaz luta política que foi retratada no filme “Fome” (2008). Mesmo preso, seus companheiros de dentro e fora das prisões conseguiram elegê-lo  ao parlamento britânico como representante da Irlanda do Norte. O objetivo não era, obviamente, o mandato parlamentar, mas comprovar o apoio da população irlandesa e o reconhecimento político dos presos republicanos e de sua luta. Foi só depois disto que a legislação inglesa passou a proibir que os presos se candidatassem. A partir de então, a população norte-irlandesa elege, todos os anos, nas eleições realizadas pelo imperialismo, anti-candidatos que se negam a jurar lealdade à rainha em apoio a luta pela independência.
 
Pôster do filme "Hunger".
 
O segundo revés imposto pela greve de fome reside na própria forma de como foi organizada. Contra a intransigência de seus inimigos foram, de uma forma inteligente, ainda mais intransigentes, convertendo uma derrota anunciada em vitória política, tornando o tempo, um elemento extremamente desfavorável em uma greve de fome, em arma política dos grevistas. Estabeleceram entre si intervalos de dias para o início da recusa à alimentação, a fim de aumentar o desgaste político do governo inglês com a extensão da durabilidade do conjunto do movimento grevista. Foi assim que um movimento que poderia no máximo durar dois meses (limite máximo que alguém pode jejuar sem morrer de fome) se todos iniciassem a greve ao mesmo tempo, se arrastou por longos sete meses. O impacto internacional de cada morte de prisioneiro por inanição repetiu-se por dez vezes, ceifando a vida de Bobby Sands (morto aos 27 anos), Francis Hughes (25), Ray McCreesh (24), Patsy O'Hara (23), Joe McDonnell (29), Martin Hurson (24), Kevin Lynch (25), Kieran Doherty (25), Thomas McIlwee (23) e Mickey Devine (27). A greve começou em primeiro de março e só terminou em 03 de outubro de 1981, quando, pressionadas pela igreja católica romana, as famílias dos grevistas romperam o compromisso de desautorizar a alimentação por sondas quando eles entrassem em coma, inviabilizando sua continuidade.
 
Os músicos irlandeses do trio Wolfe Tones, expoentes da chamada rebel music (música rebelde) irlandesa, proibidos de tocar na Inglaterra, fizeram uma canção para os heróis irlandeses “Joe McDonnell Live” (www.youtube.com/watch?v=LrqjAQVLzzE). Em uma apresentação dos Tones em 2008, quando os nomes dos dez mártires são mencionados e suas imagens exibidas durante a canção, se nota, pelas reações do público, o lugar que estes ocupam no coração do povo irlandês. Em 1982, durante a guerra das Malvinas, os Wolfe Tones compuseram outra canção em apoio à argentina na guerra.
 
Ao custo de 10 mortes, os grevistas conseguiram duas vitórias: uma moral, ao fazer com que os ingleses, mesmo sem conceder-lhes oficialmente o status de presos políticos, amenizassem a repressão carcerária poucos meses após o fim do movimento; e uma vitória política, ao frustrar os planos de criminalização da luta pela libertação nacional irlandesa aos olhos do mundo, o que foi verdadeiramente uma grande proeza, levando em conta que em seus onze anos de governo, Thatcher esmagou todos os que atravessaram seu caminho, desde a ditadura militar argentina (na guerra das Malvinas) até o movimento sindical inglês. Convicto até o final de seus dias, Bobby Sands afirmava: “Eles não têm nada em seu arsenal imperial que possa quebrar o espírito de um irlandês que não quer ser quebrado”.
 
Interior de Kilmainham, a cadeia onde os líderes da rebelião foram presos e executados.
Hoje o espaço se converteu em um museu na cidade de Dublin.
 
Em 1998, o Sinn Féin assina o Acordo de Belfast (GFA em inglês) pelo desmantelamento da guerrilha. O acordo, articulado pela Grã-Bretanha, Irlanda e EUA, pôs fim ao conflito armado no Norte, estabelecendo a divisão do poder na Irlanda do Norte entre os Unionistas e o Sinn Fein. O maior objetivo era garantir as relações bilaterais entre a Irlanda do Norte e a Irlanda, pelo bom desenvolvimento dos investimentos e do comércio. Este acordo é uma expressão do fortalecimento do imperialismo, após a restauração capitalista na URSS, sobre aquela luta de libertação nacional. A parte mais industrializada da ilha tornou-se base importante para o parasitismo financeiro das multinacionais que procuram entrar na União Europeia. Como consequência, a Irlanda foi o primeiro país da União Europeia a entrar oficialmente em recessão na crise de 2008. A política de austeridade é violentamente empregada pelo governo com a cumplicidade do Sinn Feinn através de um brutal corte dos gastos públicos e do aumento do exército industrial de reserva que pressiona pela queda dos salários no norte, sul e no conjunto da Grã Bretanha. Este crescimento da miséria afeta igualmente aos trabalhadores católicos e aos protestantes, mas as burguesias imperialistas inglesa e irlandesa estimulam as tensões sectárias inter-operárias através de grupos paramilitares como a Força Voluntária do Ulster, para dividir o proletariado e manipular sua insatisfação de classe contra seus próprios irmãos. Neste pacote, aumenta a repressão aos presos políticos republicanos irlandeses, principalmente entre os militantes que discordaram da capitulação do IRA, como Marian Price, dissidente que tornou-se dirigente do Movimento pela Soberania dos 32 Condados (32CSM).
 
Assim como Sands, Price e outros presos realizaram uma greve de fome para serem transferidos das prisões inglesas para uma prisão na Irlanda do Norte. Mas foram alimentados à força por 200 dias como ela relata: "Quatro agentes penitenciários do sexo masculino me amarram fortemente em uma cadeira. Você aperta seus dentes para tentar manter sua boca fechada, mas eles empurram um dispositivo de mola de metal em torno de sua mandíbula para abri-lo. Forçam uma pinça de madeira com um buraco no meio em sua boca. Então, eles inserem um tubo de borracha grande e você não consegue mover-se e através deste tubo eles te socam tudo que passaram em um liquidificador: suco de laranja, sopa, ou caixas de creme de leite, se eles querem reforçar as calorias. Eles levam jarras deste mingau liquidificado e despejam-no em um funil anexado ao tubo. A alimentação forçada leva 15 minutos, mas parece que nunca vai acabar. Você não tem o controle de nada. Você fica apavorado temendo que o alimento desvie-se para o lado errado e te engasgue, você não pode falar ou se mover. Você fica com medo de sufocar até a morte. " (The Guardian, 13/03/2003).
 
Price foi na década de 1990 uma das principais vozes oponentes da "estratégia de paz" do Sinn Féin, o GFA, como ela disse: "Certamente, não foi por este tipo de coisa que eu vim para a prisão”. Contrariando os que não vêem mais sentido para a luta de libertação nacional na atualidade, Marian Price argumenta: “enquanto se mantém a presença britânica na Irlanda, haverá sempre justificação, o republicanismo nunca vai se apagar. Meus princípios e ideais nunca serão esmagados. Eu não fiz as escolhas que fiz pelos indivíduos dentro do movimento republicano ou no Sinn Fein. O fato deles terem se vendido em nada deprecia minha causa" (idem).
 
Os presos políticos republicanos vêm sendo covarde e barbaramente atacados em suas próprias celas pelos guardas carcerários, com o objetivo de quebrar sua resistência política através da violência física sistemática. Como destaca o Boletim do Grupo de Apoio aos Presos Políticos Irlandeses (IRPSG, fac-símile na pág. 29 do Jornal O Bolchevique #5) um dos ataques sofridos pelo preso político Harry Fitzsimmons: “na prisão de Maghaberry em 29/05/2011, a cela de Harry foi invadida pela tropa de choque, sem que previamente tivesse havido qualquer confronto ou troca de palavras, apenas a brutalidade. Seus óculos foram quebrados com tanta força que entraram vidros nos seus olhos. Ele possui múltiplas lacerações no rosto. Os bandidos fardados seguraram-no, enquanto outros deram socos, chutes e rasgaram suas roupas”.
 
De acordo com Gerry Downing, dirigente do Socialist Fight britânico e Secretário do IRPSG, “existem irlandeses prisioneiros de guerra hoje lutando como em 1981. A resistência é inevitável. Os ‘dissidentes’ republicanos denunciam que o imperialismo britânico continua dividindo o povo irlandês pela força e por isto eles continuam a luta para a expulsão das forças da coroa. A luta pelo reconhecimento da condição de presos políticos, que foi abandonada há 13 anos com a assinatura do GFA, está se intensificando dentro das prisões, da mesma forma que os 10 da greve de fome morreram há 30 anos atrás. O GFA dificultou a unificação da Irlanda. Na Conferência do Sinn Féin no 30º aniversário da greve de fome, em 18/06/2011 em Londres, exigimos que os participantes deste encontro assumissem a sério suas responsabilidades para com os presos de hoje, lutando por seu status de preso político e que o Sinn Féin rompa com a política de austeridade econômica sobre a classe trabalhadora e os pobres.” Esta política de austeridade, onde os trabalhadores irlandeses são obrigados a pagar pela crise imperialista, expressa como a Inglaterra segue governando a Irlanda, agora através do Sinn Féin.
 
Em junho de 2012, o líder do Sinn Fein, Martin McGuinness, vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte confraternizou-se com a rainha Elizabeth. O simbólico gesto de McGuinness não surpreendeu os lutadores pela causa nacional irlandesa nem aos trabalhadores daquele país  que sofre há anos os perversos planos de austeridade impostos pelo governo de coalizão composta pelo braço político do IRA a serviço de sua majestade e do imperialismo. Enquanto isto, como parte desta política colonialista, os melhores lutadores republicanos irlandeses, conhecidos como POWs (prisioners of war, prisioneiros de guerra), assim como milhares de outros mártires da luta pela auto-determinação irlandesa contra o imperialismo britânico, amargam uma brutal opressão nos cárceres da coroa inglesa como a Liga Comunista denunciou em http://lcligacomunista.blogspot.com.br/2011/07/prisioneiros-republicanos-irlandeses.html. Aqui, reproduzimos um artigo de Charlie Walsh, do conselho editorial do Socialist Fight, membro britânico do Comitê de Ligação pela IV Internacional. Os camaradas do Socialist Fight, também impulsionam o Grupo de Apoio a Presos Republicano Irlandês (IRPSG).
 
O JOGADOR E O CANALHA: Demonstrando que os focos de resistência antiimperialista permanecem
vivos, Ronan O'Gara, jogador de rugby da seleção irlandesa de rugby se recusa a apertar a mão de Betty
Windsor reivindicando o direito da Irlanda a sua auto-determinação durante a recepção do time como
vencedor do Grand Slam de rugby em 2009. Na foto de baixo, Martin McGuinness tem o prazer de
apertar a mesma mão manchada de sangue simbolizando o seu abandono da luta antiimperialista.
 
A revolução socialista na Inglaterra continua a depender da resolução da questão irlandesa e, como Connolly concluíra, a resolução da questão irlandesa segue nas mãos do proletariado irlandês que por sua vez só se emancipará quando armar-se com o programa da revolução permanente, lutar pela unidade irlandesa e junto com seus irmãos britânicos e europeus construírem seu próprio partido revolucionário, socialista e internacionalista por uma federação de repúblicas socialistas europeias para enterrar o velho mundo capitalista.
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