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Novos nazi-fascismos: decadência imperialista e ultraliberalismo

Novos nazi-fascismos: decadência imperialista e ultraliberalismo

O caso do nazi-sionismo israelense | Um governo fascista ainda não é Estado fascista | E a Rússia, China e Bielorrússia? | Fascismo estatista, neo-fascismo ultraliberal | O oportunismo frustra e o sectarismo divide a classe trabalhadora, favorecendo o caminho da reação

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Humberto Rodrigues

 

Milei (Argentina), Wilders (Holanda), Abascal (Espanha), Zelensky (Ucrânia), Meloni (Itália), Bolsonaro e Trump e a brutalidade do genocídio nazi-sionista são manifestações complementares da mesma tendência que vem contagiando o bloco de nações que compõem o sistema imperialista no Ocidente. Em menor ou maior grau, todos defendem uma política de radicalização do neoliberalismo, ou ultraliberalismo, uma política de trabalho completo a serviço do capital financeiro e do imperialismo.

 

Apesar das diferenças entre o nazismo e o fascismo, como o fato de o nazismo envolver o componente racista de forma mais ostensiva, por exemplo, agora não vamos tratar das contendas entre esses dois fenômenos, mas sim das semelhanças e diferenças entre o nazi-fascismo da primeira geração, manifestado entre os anos de 1920 a 1945, e da atual, relativa aos movimentos e governos identificados com traços nazi-fascistas no século XXI.

 

Desindustrialização e decadência imperialista

 

Apesar das várias particularidades locais e diferenças entre si, aspectos em comum, todos esses fenômenos contemporâneos estão associados à desindustrialização do Ocidente, com a migração das indústrias para o Oriente, observada nos últimos 50 anos e, portanto, com a desarticulação do proletariado industrial nos países ocidentais. Note-se que o fenômeno ocorre com muito menos intensidade na Ásia, que passa por um processo desigual de industrialização, e onde a extrema direita cresce apenas marginalmente.

A exceção estaria na Índia. Modi, líder do país mais populoso do mundo é de extrema direita e a Índia é um dos países que mais se industrializa. Mas, Modi não possui força suficiente para converter o Estado indiano em mais fascista do que já é. Os fascistas aspiram a sufocar os sindicatos e o direito à greve. As maiores greves gerais da história foram realizadas contra o governo Modi em 2016 (180 milhões de trabalhadores parados) e 2020 (250 milhões).

Até agora, os governos fascistas não conseguiram transformar Estados em Estados fascistas. A maioria deles, não dura mais do que um mandato nem elege sucessor, fenômeno que pode ganhar maior solidez nas próximas gerações se a tendência não for contida e derrotada.

É bem verdade, que para as frações mais exploradas e oprimidas do proletariado, sobretudo para os negros e latinos nos EUA, para os negros no Brasil e imigrantes em quase todos os países, marcadamente na Europa, o terror de Estado capitalista se impõe de maneira brutal, de forma fascistóide e independente de governos, pois tornou-se uma política de Estado permanente da burguesia contra o proletariado no século XXI.

 

O caso do nazi-sionismo israelense

 

Israel não se tornou um Estado nazista com a chegada ao poder de um governo de extrema direita, ele já foi criado como um Estado nazista contra a população Palestina. Independentemente de Tel Aviv ser governada pelos laboristas ou pelo Likud, a brutalidade nazi-sionista é a mesma há 76 anos. O Estado de Israel já nasceu como uma criatura artificial do imperialismo, deformando a questão judaica em favor do grande capital, representando um enclave desse sistema na Ásia Ocidental.

Há 40 anos, o secretário de Estado dos EUA Alexander M. Haig, apontado pelo então presidente Ronald Reagan, cunhou a seguinte definição sobre o aliado do Oriente Médio: “Israel é o maior porta-aviões americano, é inafundável, não carrega nenhum soldado americano e está localizado numa região crítica para a segurança nacional dos EUA”. (BBC: Por que os EUA apoiam Israel?).

A função da entidade sionista criada em 1948 é ser uma extensão da política imperialista anglo-saxônica na região que concentra a maior parte do petróleo planetário. Então, Israel não se tornou fascista com o governo de Benjamin Netanyahu, já nasceu como um Estado nazista, haja vista seu componente racista, de segregação, de apartheid e de manutenção de campos de concentração de refugiados por muitas décadas mais do que foram as experiências de Hitler (12 anos) e Mussolini (21 anos).

A entidade sionista é a expressão mais longeva do nazismo imperialista. Israel se tornou o que é, sob a mesma mágica que fez o nazismo se erguer imponente na Alemanha, após a humilhante derrota alemã na primeira guerra e do mais humilhante ainda tratado de Versalhes, graças aos pesados investimentos do conjunto do imperialismo ocidental. Naquela época, para sufocar a revolução russa e os processos revolucionários europeus, hoje, para para expulsar os palestinos e roubar suas terras, ricas em gás, petróleo e geopoliticamente estratégicas.

 

Governo fascista ainda não é Estado fascista

 

Em 1932, ao teorizar sobre os elementos indicativos da fascistização de um Estado, o revolucionário bolchevique Leon Trotsky escreveu:

 

"Do fascismo a burguesia exige um trabalho minucioso; uma vez que tenha recorrido aos métodos da guerra civil, insiste em ter paz durante um período de anos. E a agência fascista, ao utilizar a pequena burguesia como aríete, ao superar todos os obstáculos no seu caminho, faz um trabalho minucioso. Após a vitória do fascismo, o capital financeiro reúne direta e imediatamente em suas mãos, como num torno de aço, todos os órgãos e instituições de soberania, os poderes executivos, administrativos e educacionais do Estado: todo o aparato estatal junto com o exército, os municípios, as universidades, as escolas, a imprensa, os sindicatos e as cooperativas. Quando um Estado se torna fascista, isso não significa apenas que as formas e métodos de governo são alterados de acordo com os padrões estabelecidos por Mussolini – as mudanças nesta esfera desempenham, em última análise, um papel menor – mas significa antes de tudo, na maior parte, que as organizações de trabalhadores são aniquiladas; que o proletariado está reduzido a um estado amorfo; e que seja criado um sistema de administração que penetre profundamente nas massas e que sirva para frustrar a cristalização independente do proletariado. É precisamente aí que está a essência do fascismo..."  (HOW MUSSOLINI TRIUMPHED. From What Next? Vital Question for the German Proletariat, 1932).

 

Essa formulação de Trotsky referia-se à realidade da Itália de Mussolini, em processo de recente e tardia unificação e industrialização, quando a burguesia imperialista precisou conter a poderosa força do proletariado e suas organizações pelo aniquilamento, a fim de reduzi-la a um estado amorfo para poder criar, em seguida, um sistema de administração e controle social que cerceasse toda oposição proletária ao regime fascista.

Os governos dos dirigentes políticos citados no parágrafo inicial desse texto têm claras aspirações fascistas, mas a conversão de seus Estados em Estados fascistas por completo, aos moldes de Mussolini, é algo que não vimos nem na mercenária e fascista Ucrânia de Poroshenko e Zelensky, onde sindicatos foram esmagados fisicamente e a oposição política e o comunismo foram proibidos.Todavia, pode ser que no futuro, uma nova geração de governantes representantes de um sistema imperialista ainda mais decadente e desesperado converta os Estados em Estados fascistas. A manifestações mais grotescas do imperialismo não são coisas de um passado longínquo. Nos últimos 20 anos, o imperialismo reuniu dezenas de atraocidades antigas, requentadas e novas em sua caixa de ferramentas, só para listar as mais populares: torturas no Iraque e campo de concentração em Guantánamo; terrorismo do DAESH armado e patrocinado contra a Síria; ocupações militares sanguinárias como na Líbia e no Afeganistão; assassinato de centenas de civis com drones em várias partes do mundo; dezenas de laboratórios de armas bacteriológicas,  explosões de gasodutos, pontes e mercenários nazistas na Ucrânia; sequestro, tortura e assassinato de mulheres, crianças, bombardeio com fósforo branco, limpeza etnica e explosões de hospitais na Faixa de Gaza e muitos golpes de estado contra os governos dos países oprimidos. Como nos alertou o grande cientista geopolítico Moniz Bandeira: "Impérios são mais perigosos quando declinam".

 

E a Rússia, China e Bielorrússia?

 

Os governos da China, Rússia e Bielorrússia, que também coíbem a oposição interna e onde quase inexistem sindicatos independentes, não seriam também fascistas? Acreditamos que a ascensão desses governos é também parte do fenômeno da decadência do sistema imperialista, porém como sua contradição, seu complemento antagônico dentro do mercado mundial capitalista, expressando a resistência de burguesias nacionais oprimidas e opressoras, como se vê na nova guerra fria. Identificar o fenômeno meramente por sua forma, divorciando-o de seu conteúdo estrutural, apartando-o artificialmente do fato de serem instrumentos do imperialismo é o método liberal, de teóricos do capital como Hannah Arendt, da teoria dos dois demônios, etc.

O fascismo é uma forma de governo do capital financeiro e do sistema imperialista contra os países oprimidos e os trabalhadores. Na atualidade, a política hegemônica de todos os países subordinados ao sistema mundial imperialista é a política neoliberal ou ultraliberal. Essas políticas econômicas predominam na Ucrânia, na Itália, nos EUA e durante o Brasil de Bolsonaro, mas não na Rússia, China e Bielorrússia.

Devemos atualizar os conceitos e enriquecê-los com as novas determinações da realidade em movimento. Não se deve colocar um sinal de igualdade entre os fenômenos que são instrumentos do imperialismo e aqueles que se opõem ao imperialismo. As organizações dos trabalhadores e a oposição política também sofreram perseguição pelo stalinismo e ninguém pensou em chamar a URSS de Estado fascista. A Rússia, a China e a Bielorrússia não são países capitalistas como os outros, têm entre si a intersecção histórica de terem passado por ditaduras proletárias, não possuem regimes anticomunistas nem se desindustrializaram como o Ocidente, onde as tendências nazis voltaram a crescer. Caracterizamos que as contradições da restauração capitalista nos países que haviam expropriado a burguesia como classe, combinadas ao declínio do imperialismo, promoveram a ascensão na Rússia e na China de um capitalismo não-imperialista, deformado por décadas de desenvolvimento não-capitalista. (Partido Comunista - LCFI: Marxismmo e Guerra Fria após a contrarrevolução).

 

Fascismo estatista, neo-fascismo ultraliberal

 

Outra diferença entre os nazifascistas atuais e os da primeira geração está na relação entre estatização e privatização da economia nacional. Embora o “Estado corporativo” de Mussolini não passasse de um agente truculento do grande capital e não fosse proprietário das empresas, como espírito daquele tempo, de URSS e keynesianismo, Mussolini contava vantagem de que “três quartos da economia italiana, industrial e agrícola, se encontram nas mãos do Estado” (Popollo d’Italia, 26 de maio de 1934).

Numa fase de desindustrialização também chamada de pós-fordista, o proletariado fabril, de modo estrito, e os sindicatos, em geral, fragilizados, a burguesia não vê como necessário pagar o custo político de esmagá-los para precisar conter a resistência organizada do proletariado.

Portanto, os novos nazifascismos são movimentos incompletos, mas relativamente eficazes em aterrorizar e retirar direitos históricos ao proletariado, permitindo assim o avanço do chamado ultraliberalismo. E este avanço sobre os direitos do proletariado, a expansão da exploração, a sobre-espoliação, são o que mais interessa ao grande capital, daí a utilidade dos neofascistas.

Mas, essa nova onda também é uma expressão da decadência do sistema mundial imperialista, que cada vez mais precisa substituir o soft-power por governos de extrema direita a fim de manter o controle social com políticas repressivas e cooptar uma fração descontente da população para uma espécie de rebelião reacionária contra os políticos tradicionais.

 

O oportunismo frustra e o sectarismo divide a classe trabalhadora, favorecendo o caminho da reação

 

Essa forma política não é produto apenas da decadência imperialista, mas também da decadência do reformismo oportunista, incapaz de atender às mínimas demandas de sobrevivência da população trabalhadora em meio à decadência imperialista, favorecendo a criação de ressentimentos dentro do proletariado, alimentando os preconceitos contrarrevolucionários e anticomunistas. A socialdemocracia pavimenta o caminho do nazismo.

Também o dogmatismo, o sectarismo de extrato trotskista ou stalinista, não conseguiu apresentar alternativas frente à decadência imperialista. Ambas as frações do movimento comunista que não descarrilharam para o oportunismo, caíram no vício oposto, o sectarismo, a crença de que o capitalismo atravessa sua crise terminal, que vivemos uma situação pré-revolucionária, que não é necessário construir frentes únicas contra o imperialismo e contra o fascismo, que a disputa entre OTAN e BRICS, sendo blocos capitalistas, é indiferente para a classe trabalhadora. O sectarismo fragmenta e enfraquece a luta contra a reação.

Some-se a isso a desindustrialização, a falta de perspectivas de vida da juventude e a apatia política das novas gerações da classe trabalhadora (que faz com que predominem ativistas com mais de 50 anos nas reuniões da esquerda) após quase meio século da última vitória revolucionária proletária (Vietnã, 1975) e três décadas de derrotas históricas como o fim da URSS (1991), e ficamos diante de uma situação conjunturalmente desfavorável à esquerda e favorável à organização política da direita.

Todos esses movimentos são temporários e inclusive o atual refluxo revolucionário que favorece a ascensão dos novos nazi-fascismos é momentâneo. Nossa época, a época desse refluxo revolucionário, também é o momento das maiores mobilizações sociais da história, a maior greve geral da história do Brasil (2017), a maior greve geral da classe trabalhadora (Índia, 2020); a maior onda de protestos antirracistas nos EUA (2020); a maior mobilização mundial pela causa palestina nos 76 anos de existência de Israel (2023).

Todos esses movimentos, grandiosos, conseguem conquistas parciais importantes, são demonstrações colossais e inéditas da história da luta de classes, mas não resolvem o problema que os gestaram pois, para isso, é preciso, além dessas lutas, a conquista do poder pela classe trabalhadora organizada em partidos comunistas.

A exigência da forma nazista de fazer política em favor da acumulação de capitais gesta também, contraditoriamente, por uma questão de sobrevivência, a necessidade da superação da colaboração de classes, do quietismo, do anticomunismo dentro da esquerda, do sectarismo contra as táticas de frente única. Tudo isso deve ser combinado com a luta contra a desindustrialização neoliberal, contra o imperialismo e pela construção de novos partidos comunistas e revolucionários que unifiquem e organizem a resistência à ascensão da direita, mas também que penetrem no movimento de massas com um programa para mobilizar a classe trabalhadora contra a barbárie imediata e também por seus interesses estratégicos.

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